Review: Spectrus – Paralisia do sono

Review: Spectrus – Paralisia do sono

Olá caros leitores! O review de hoje será sobre Spectrus – Paralisia do sono, história em quadrinhos brasileira criado por Thiago Spyked e publicada pela Crás Editora.

Vamos tentar resumir sem estragar a experiência de quem venha a ler:

Lila é uma jovem cuja alma “despertou” e saiu do corpo durante uma paralisia do sono, entrando naquela de “se aquele é meu corpo, então eu morri?”. Nesse contexto, depara-se com a entidade que se apresenta como Geravinishweller, que por hora vou chamar de “Senhor casaco” (ele logo ganha um apelido melhor de sua nova amiga). Ele informa que a consciência de Lila foi roubada e separada em três essências: razão, sanidade e criatividade. Sabendo disso a garota e “Senhor casaco” adentram a dimensão Spectrus – diferente da realidade e também diferente do mundo dos sonhos – para reaver as três partes de sua consciência numa aventura ao bom estilo “História sem fim” (se você sabe do que estou falando, sim, estamos ficando velhos).

Spectrus – Paralisia do sono, consegue ser interessante e prender a curiosidade mesmo sem grandes extravagâncias ou grandes mistérios, apenas apresentando ao leitor os novos elementos e metáforas utilizadas para construir esse novo universo. O encontro com cada novo personagem dá o tempo suficiente para que este seja bem apresentado. A cada nova página, aprendemos um pouco mais sobre quem é Lila e imaginamos como é sua vida no “mundo real”, fora da aventura. O encontro com o Senhor casaco é um momento divertido e interessante por si só. Vemos ele literalmente ser construido aos poucos até tomar sua forma final.

É  (lembre-se dessa palavra) perceptível o esforço do autor em entregar conteúdo rico em significados, quase como poesia, criando os elementos do mundo de acordo com uma mensagem bem definida. Ainda durante o primeiro terço da jornada, somos apresentados à metáfora da razão: uma estrada que deve ser “seguida em linha reta mantendo os pés no chão”, onde há todo tipo de coisas legais e incríveis como tentação fora do caminho. Familiar?

 

 
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Se você persegue algum objetivo específico durante muito tempo, você, assim como Lila, andou por essa mesma estrada. Uma grande linha reta, monótona, cansativa, apenas assistindo coisas incríveis acontecendo por todos os lados. Sair da linha talvez significasse diversão, mas poderia significar o fim da jornada. Gostou? Pois é, é esse o timbre que acompanha a obra do início ao fim, com várias e várias dessas pequenas e interessantes metáforas.

Para toda força, um ponto fraco: ser perceptível o esforço na entrega do conteúdo tem o lado negativo de: ser perceptível. “Ok, o que raios isso quer dizer?” Sabe aquele quadrinho num panfleto do governo colocando o “vilão poluição” e os “amigos da natureza”? É um exemplo bem extremo, Spectros felizmente não chega a tanto. Porém em alguns momentos a construção da mensagem remete à sensação do panfleto, quando percebemos a metáfora antes mesmo dela ser revelada. No próprio exemplo da estrada da razão, já conseguimos prever alguns dos acontecimentos antes de começarem. Também está presente o completo oposto, uma metáfora que precisou ser explicada nos extras para se tornar clara (ao menos para mim, se você ler e entender de primeira, provavelmente eu que sou lerdo).

Essas “calibragens de narrativa”, contudo, de jeito nenhum desmerecem a obra. Tenha em mente que aqui foram citados apenas alguns poucos exemplos e são 120 páginas de uma história rica nesses momentos. Sequer citei o Cabeça de Pano! Esse foi de propósito, como disse, não quero estragar a leitura!

Observações técnicas

Gostaria de explicar um pouco sobre minha forma de observar as histórias em quadrinho. Acho isso importante para que possamos nos entender e, com sorte, produzir um review que tenha algum valor. Afinal, produzir quadrinhos é uma tarefa complexa e muito trabalho invisível é realizado pelo artista para entregar a melhor experiência ao leitor.

Ao ler, costumo observar, nessa ordem:

  1. Construção de página:
  • Se o layout (formato e disposição dos quadros) colaboram com as cenas e sequências daquela página;
  • O posicionamento dos balões, se permite a leitura fluida ou se acabam deixando o leitor perdido na sequência;
  • Se as cenas apresentadas em cada quadro fazem sentido enquanto sequência.
  1. Roteiro: se o encadeamento de acontecimentos da história fazem sentido (que é diferente de verificar a sequência entre quadros nas páginas).
  2. História: Pontos positivos e negativos da história, aqui já entrando no mundo da opinião.

O primeiro ponto, construção de página, é como a caligrafia e ortografia de uma carta (alguém ainda escreve?): se a letra for um garrancho e as palavras cheias de erros, dificilmente o leitor compreenderá a mensagem da carta.

No segundo ponto, imaginando uma letra legível e palavras bem escritas, se as sentenças escritas não fizerem o menor sentido, tampouco se entende a mensagem.

No terceiro ponto, se estamos falando sobre o conteúdo, quer dizer que todo o restante foi executado bem o suficiente para compreendermos a mensagem.

Quadrinistas experientes resolvem os pontos 1 e 2 com as mãos nas costas, por isso damos pouca atenção a esses elementos quando nos deparamos com uma boa leitura. Spectrus é uma dessas obras, por isso tais detalhes não foram citados no review. O resto é gosto!


Por Thiago AAS

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